Blog da Semente

Nossas visões sobre empreendedorismo e inovação no Brasil

Estou confuso, o que é um Negócio de Impacto Social?

Eu não gosto muito de suspense. Decidi começar pelo fim: eu não sei o que é um Negócio de Impacto Social. Mas quer saber? Acho que ninguém sabe…

Oi, eu sou o Juliano Trevizan e estou verdadeiramente honrado que você esteja dedicando seu precioso tempo para ler o que escrevi. E espero que daqui a 5 minutos você esteja tão confus@ quanto eu.

Venho trabalhando há alguns anos com empreendedorismo, mais especificamente na “rubrica” impacto social. Já acompanhei individualmente algumas centenas de pessoas e empreendimentos, e atualmente atuo em dois programas que apoiam 130 negócios de maneira intensiva. Eu sei, é bastante. Minha caixa de emails também sabe.

Pra começar, quero avisar que minhas palavras não são técnicas. Se você quer uma leitura assim recomendo a dissertação do meu sócio Marcio Jappe, Google it 🙂

Mas enfim, o que é mesmo um negócio de impacto social?

Importante falar que esse conceito surgiu a partir de outro conceito, o de negócios sociais, criado pela lenda viva Muhammad Yunus. Um negócio social tem uma definição clara, proposta pelo Yunus, em que um ponto chave é que o negócio deve reinvestir 100% do lucro na própria empresa. O que aconteceu foi que o mundo ocidental gostou dessa pegada social e adaptou o conceito, inserindo o “impacto” e dando, nessa nova concepção, a liberdade aos empreendedores para fazerem o que bem entenderem com o lucro do negócio.

Tendo isso posto, vamos por partes, como diria o Jack.

Na escola eu tive um professor de história que sempre dizia que palavras compostas são autoexplicativas. Ele falava: “Um meio de produção é um MEIO – DE – PRODUÇÃO. Um modo de produção é um MODO – DE – PRODUÇÃO”. Assim fica fácil né?

A base da definição tá na cara. São NEGÓCIOS (na verdade, pessoas) que escolhem focar seus esforços em gerar um IMPACTO para a SOCIEDADE. Agora que impacto é esse? E que sociedade é essa?

Aí que tá. É tão difícil definir esse conceito porque existem muitas variáveis subjetivas, como por exemplo, o que é um impacto “positivo”. É aquela coisa, cada um tem sua opinião e argumentação, e quando se trata de definir o que é “bom” as divergências vêm à tona.

Para exemplificar esse dilema trago alguns exemplos: a Meu Copo Eco produz copos reutilizáveis, em substituição aos copos descartáveis. Eles calculam já ter evitado o desperdício de mais de 1 bilhão de copos descartáveis. No entanto, a empresa não deixa de ser uma fábrica de copos. Aqui temos uma boa discussão, não acha?

Agora temos uma empresa que trabalha com agricultura. Ela quer tornar esse mercado mais eficiente, produzindo alimentos mais resistentes às intempéries, assim o agricultor será beneficiado e teremos mais comida a menor preço. Será a Monsanto um negócio de impacto social?

Vamos por outro caminho: digamos que eu encontro uma cidade com alto nível de pessoas sem ocupação. Então eu decido criar uma fábrica, e gero um alto nível de empregabilidade. Serão as montadoras negócios de impacto?

Viu como é subjetivo? Sempre vão existir argumentos mostrando ser “positivo” ou “negativo”. Há quem chame isso de luz e sombra, e o que quero dizer é que a questão não é essa. Eu mesmo falo muito em “impacto positivo”, mas sei que esse é um discurso falido. E como fazemos para definir o que é um negócio de impacto social?

Depois de analisar o “impacto”, precisamos entender o “social”. Para quem nosso esforço é direcionado? Aqui partimos da premissa que vivemos em um país (e um mundo) com desigualdade social, portanto existem negócios que irão estreitar essa lacuna de desigualdade e outros que irão alargá-la.

Por exemplo: um negócio de educação que prepara estudantes para o vestibular em alto nível, cobrando um valor hora de R$ 100,00. Ele deixa seus clientes muito felizes, pois têm uma alta taxa de aprovação e eles vão viver seus sonhos. Isso é impacto certo, permitir que as pessoas vivam seus sonhos? Mas e quem não pode pagar pelas aulas? Essa lacuna social não vai ficar ainda maior?

Agora, digamos que eu tente estreitar a lacuna, criando uma companhia aérea com baixíssimos custos. Isso permitirá que mais pessoas viajem, revejam suas famílias, criem novas possibilidades. No entanto, para essa empresa funcionar ela precisa de altíssimos volumes de passageiros, o que acaba inflando os aeroportos e potencialmente prejudicando passageiros de outras companhias aéreas. E aí, é bom para a sociedade?

Definir o que é ou não impacto social é subjetivo e não há um conceito globalmente aceito. Academicamente isso se chama “conceito em disputa”. Assim, cada instituição que quer trabalhar com esse “tema” cria sua própria regra. Para alguns, precisa focar nas classes CDE (base da pirâmide). Para outros, tem que ser escalável (crescer muito rápido com custos não proporcionais). Tem quem defenda que ONGs também são negócios de impacto. Mais recentemente o que anda em pauta são as ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis), propostas pela ONU, que ajudam a entender que “melhorias” o mundo mais precisa.

Tudo isso ajuda, direciona, mas não resolve a questão. O que é um negócio de impacto social?

Esse debate é importante para, primeiro, entendermos o óbvio: TODA EMPRESA gera impacto social. A diferença não está na geração do impacto, mas no QUERER gerar um impacto específico, tendo isso como PRIORIDADE através de sua ATIVIDADE PRINCIPAL (seu produto).

Empreendedores de negócios de impacto social entendem de maneira integral o movimento que sua entrada gera na sociedade, realizando, de maneira estruturada ou não, uma teoria de mudança e uma posterior avaliação de impacto. É preciso entender que não basta analisar o que fazemos, mas também as potenciais consequências das nossas ações. Olhar não só para o final do processo, mas para o processo em si. Empresas como a Mercur estão nos ajudando a entender como inclusive empresas centenárias podem se reinventar e serem negócios de impacto social porque QUEREM ser. Antes tarde do que mais tarde.

Vamos deixar claro: ser um negócio de impacto não é apenas resolver um problema/necessidade socioambiental, mas escolher tratar o “impacto social” como um ponto central e estratégico do negócio, como orientador da tomada de decisão. É preciso avaliar algo prático, que é reflexo de um processo pessoal e interno. E enquanto negócio, buscar enxergar tanto o processo quanto o resultado, e avaliar periodicamente as implicações de sua existência na sociedade como um todo (mais difícil do que só ganhar dinheiro, né?).

Mas sabe do que? O mais incrível é que grande parte d@s empreendedoras(es) de impacto nem se reconhecem como tal. Eu acho isso o máximo! Essas pessoas estão resolvendo os problemas e necessidades que existem por aí, sem previamente se encaixar em algum conceito… Apegue-se às necessidades, não às ideias.

O importante aqui é saber que um(a) empreendedor(a) de impacto social precisa ter um conhecimento, duas habilidades e uma atitude:

  1. C) conhecimento de CAUSA (empatia através da imersão),
  2. H) um alto nível de EXECUÇÃO (fazer fazer fazer),
  3. H) a capacidade de se QUESTIONAR constantemente (avaliar suas decisões e seu impacto),
  4. A) a atitude de nunca perder de vista seu PROPÓSITO (e ressignificá-lo diariamente).

Lembre-se: FEITO > perfeito e POR QUÊ > o quê.

A intuição decide, a mente planeja, as emoções motivam e o corpo faz.

Se você quer criar um negócio ou transformar sua empresa em um negócio de impacto social, tenho uma dica: estruture bem sua teoria de mudança, entenda quais são suas métricas de impacto e vá coletando evidências do trabalho realizado. Ocupe-se então em resolver os problemas e necessidades do seu público, e o impacto ficará evidente.

Se você, assim como eu, ainda não sabe o que é um negócio de impacto social, mas escolhe ser a mudança que (você acha) que o mundo precisa, eu estou aqui para te ajudar! Lembre-se, você não precisa criar a mudança, você é a mudança.

Se esse texto te tocou, incomodou, te fez rir ou chorar, comenta aí! Quem sabe não surge aqui mais uma história?

Juliano Trevizan é sócio e consultor da Semente.

Três características dos inovadores

Como agem as pessoas que transformam a sociedade?

Há cerca de sete anos me dedico a ajudar empreendedores que, além de criarem novas organizações, o fazem com o objetivo de romper com o status quo. Tomei essa como uma missão de vida por observar que esses desobedientes são maltratados. Estou falando de gente com um tipo de rebeldia que tem fundamento e ferramenta, que é usar mecanismos de mercado (a oferta de produtos e serviços) para desencadear transformações sociais.

Essa é uma arte que, a cada 10 que tentam, menos de um, em média, consegue desempenhar. Os outros nove e alguma coisa sofrem duras consequências por falharem. Uma parte importante do meu trabalho é identificar padrões a respeito dos que rompem a barreira da inovação e, de fato, interferem em algum sistema complexo. Trabalhei com gente que balançou velhas estruturas na educação, na agricultura, no sistema financeiro.

E, no fim do dia, há três coisas que essas pessoas têm de diferente de todo mundo.

A primeira é presença. Assim como eu sei exatamente o tipo de gente que quero ajudar, eles também sabem. E estão realmente presentes nas vidas dessas pessoas, fazendo parte do dia a dia, dialogando, entendendo as dores, angústias e recompensas.

A segunda é perspectiva. Inovadores sabem quais são os pontos nevrálgicos nos quais eles querem interferir dentro de um enorme emaranhado de possibilidades. E sabem expressar com clareza o que está errado naquele mundo onde atuam, e porque está errado.

E a terceira é disciplina. Quem inova sabe admitir quando aquela hipótese que acreditara ser uma verdade absoluta se provou errada. Sabe como fazer para checar, no mundo real, cada crença sua. E trabalha duro para fazer essa checagem, com persistência no objetivo maior, mas sem insistir em erros. No meio do caminho, vai conhecendo aliados que se tornam clientes, parceiros, investidores. É assim mesmo que funciona.

Igor Oliveira é sócio-fundador da Semente.

Publicado originalmente no jornal Zero Hora, dia 08 de setembro de 2017.

Semente Negócios: por que existimos?

O empreendedorismo inovador como ferramenta de desenvolvimento

Há pouco mais de 6 anos, a Semente Negócios foi concebida refletindo um desejo genuíno de impactar positivamente o mundo. Desde então o entendimento sobre o cenário desejado e a contribuição da Semente para atingi-lo evoluiu, graças à interação direta com mais de 7.000 empreendedores das 5 regiões do Brasil, de alguns países da América Latina e dos EUA, experimentando, testando, refletindo e aprendendo juntos. Sinto-me privilegiado por fazer parte desta trajetória, que me faz ver na prática e acreditar cada vez mais no empreendedorismo inovador como ferramenta de desenvolvimento.

Mas como atuamos para este desenvolvimento? Na Semente promovemos o desenvolvimento distribuindo capacidade de inovação para pessoas empreendedoras em diferentes redes e localidades, desenvolvendo empreendimentos inovadores, fortalecendo comunidades de práticas e trabalhando com para a emergência de ecossistemas empreendedores, para aumentar a complexidade econômica de territórios, e expandir liberdades e resiliência. Soa mais complicado do que é. Buscarei explicar como todos estes conceitos se encontram nos parágrafos seguintes.

Antes, precisamos entender melhor o contexto do qual estamos inseridos, para isso é necessário definir pobreza de forma ampliada. Uso como referência Amartya Sen, escritor e economista indiano no livro “Desenvolvimento como Liberdade”: “…a pobreza deve ser vista como privação das capacidades básicas em vez de meramente como baixo nível de renda”, ou seja, um problema mais complexo, que exige soluções que vão além de aumento do PIB e distribuição de renda, mas sim um aumento consistente das capacidades básicas (liberdades) das pessoas.

Assim como o crescimento do PIB e programas de redistribuição de renda não são condições suficientes para solucionar problemas econômicos e sociais de um território pobre e desigual, a diversificação de atividades econômicas de baixa complexidade, também não alcançam esse objetivo. Já o mix de produtos, o valor agregado e seu grau de complexidade nos dá uma indicação sobre a habilidade de um território em solucionar problemas em pequena e larga escala (aqui vale a pena conferir o trabalho do Observatório da Complexidade Econômica do MIT. Afirmar que o aumento dessa complexidade econômica (ou seja, a diversificação econômica associada à inovação) pode promover desenvolvimento humano em um território por longos períodos de tempo, faz sentido para mim.

E é aí que entramos. Há trabalhos da Semente em desenvolvimento territorial, aceleração, corporate ventures, mapeamento de ecossistemas empreendedores emergentes, etc. Navegamos no universo da inovação de forma “agnóstica”, ou seja, atendemos startups, negócios de impacto e organizações sociais inovadoras sem um julgamento a priori sobre formato organizacional ou “bandeira”, pois o empreendedorismo inovador está no centro do nosso impacto. Buscamos contribuir para a diversificação econômica gerada pelo empreendedorismo inovador e para a liberdade de autodeterminação individual e coletiva gerada pela ampliação das possibilidades e paradigmas de sucesso dentro de uma determinada realidade.

De forma bastante concreta, desenhamos e executamos programas de desenvolvimento de empreendedores e seus empreendimentos inovadores, em parceria com diferentes organizações (empresas, governo e terceiro setor).

A resolução de problemas reais e relevantes é intrínseca ao ato de empreender. E empreender de forma inovadora significa fazê-lo com mudanças em produtos, serviços, processos e/ou modelos de negócio que resultam em melhores soluções, ou seja, em mais valor para quem tem seus problemas resolvidos. Seja com abundância de investimentos ou por meio da presença, da observação atenta e da impulsão de soluções em comunidades. E é esta inovação que gera impacto, seja através de uma startup de tecnologia ou de um negócio de impacto.

A Semente atua em contextos locais desenvolvendo a comunidade empreendedora, entendida como uma comunidade de prática, ou seja, um grupo de pessoas com um interesse, problema ou paixão em comum e que aprofundam seu conhecimento e expertise através da interação contínua com troca de informações, insights, conselhos, resolução de problemas e diálogo sobre aspirações e necessidades. Antes das instituições, há pessoas cuja visão de mundo, acesso à informação e capacidade as permitem empreender. O fomento de um ecossistema empreendedor emergente deve focar nas pessoas e seu entorno.

Para fechar o ciclo e entender porque vemos nosso impacto na distribuição de capacidade de inovação, mencionarei novamente Amartya Sen, que considera que o processo de alargamento das liberdades de um indivíduo passa pela capacidade de participação em um universo social, econômico e político. Não se trata de uma liberdade em si mesma, mas uma liberdade direcionada a aspectos específicos, capazes de solucionar problemas cotidianos. A distribuição das liberdades é, portanto, uma distribuição de capacidades. Somente há possibilidade de criação de novos paradigmas de sucesso em contextos onde as capacidades de inovação estão distribuídas. E a Semente está aqui para ajudar neste processo, seguindo a linha:

  • Do empreendedorismo inovador como ferramenta de desenvolvimento, em coerência com o conceito de “Desenvolvimento como Liberdade” do Amartya Sen;
  • Do desenvolvimento que depende de maior complexidade econômica, que por sua vez depende do empreendedorismo inovador, que depende da resolução de problemas via comunidades de prática de pessoas empreendedoras em ecossistemas empreendedores emergentes;

Portanto, distribuir capacidades de inovação é a peça-chave na promoção do desenvolvimento, justamente o que fazemos na Semente ao desenhar e executar programas de desenvolvimento de empreendedores e seus empreendimentos inovadores em parceria com outras organizações.

O que acha da nossa proposta? Quer embarcar nesse caminho com a gente? =)

Espero os comentários de vocês para poder evoluir (ou simplesmente desenrolar) esta conversa!

Marcio Jappe é sócio-fundador da Semente.

Quatro formas de Intraempreendedorismo

O intraempreendedorismo pode ser abordado de vários ângulos. Reconheço que as melhores tentativas de defini-lo dão conta de aspectos atitudinais, comportamentais, culturais do empreendedorismo em organizações consolidadas. como tornar a sua empresa mais inovadora No entanto, quero me ater aqui a um sentido mais estrito do intraempreendedorismo: o ato de colocar no mercado novas soluções (bens ou serviços) que respondam a necessidades reais de pessoas reais.

É essa, afinal, a ação fundamental que permite às grandes organizações manterem-se relevantes quando o mundo muda. Parto da premissa (ilusória, eu sei) de que elas não apelam para métodos corruptos de manutenção do seu espaço oligopolístico, como o erguimento de barreiras regulatórias infundadas ou outras formas de relacionamento espúrio com o Estado.

Já deu para perceber que não tenho grande apreço pela sobrevivência das grandes organizações. Os ciclos de vida cada vez mais curtos, particularmente quando falamos de corporações, são uma boa novidade da nossa época. Sobrevivem aquelas que conseguem colocar-se como plataformas para as pessoas inovarem, se adaptando às complexidades desses colaboradores e, principalmente, dos mercados onde estão inseridas. As que morrem dão lugar a novas estruturas, muito necessárias em uma civilização que precisa se regenerar.

Feita a introdução filosófica, quero destacar quatro diferentes manifestações do intraempreendedorismo que tenho observado. Para facilitar, vou classificar essas formas de empreender segundo dois critérios:

  • A inovação é gerada por uma equipe interna ou externa?
  • A organização-mãe é sócia dessa equipe no novo negócio a ser desenvolvido?

1 Interação com startups externas sem relação societária

Nessa categoria cabem vários tipos de relações com startups ou pequenas empresas inovadoras. A mais clássica de todas é a relação de fornecimento. Ser o primeiro cliente ou um dos primeiros clientes de um novo produto pode ser extremamente útil em termos de criação de vantagens competitivas, aquisição de competências e obtenção de condições de contratação favoráveis. Na minha visão, essa é uma prática ainda pouco explorada dentro de grandes organizações, que muitas vezes se preocupam demais em saber quais são as macrotendências dentro de seus mercados ou em ter um radar completo das inovações, mas não conseguem partir disso para a ação. A moda agora é patrocinar programas de aceleração de startups executados por terceiros, com o objetivo de fazer a empresa patrocinadora parecer atualizada e permitir que esteja um pouco mais próxima dessas startups, ainda de maneira pouco efetiva.

2 Investimento em startups externas

Aqui entram os corporate ventures, fundos de investimento criados por grandes organizações para investir em startups. É um passo adiante, e também está na moda! Corporações costumam gastar um ano inteiro (ou mais) estruturando juridicamente um fundo e abrindo espaço na governança corporativa para poder fazer esse movimento. Poderiam começar esse trabalho usando mecanismos e veículos de investimento menos invasivos, como opção de compra e dívida conversível em participação. Se alguma startup investida realmente desabrochar, aí sim será a hora de criar o veículo mais robusto. Melhor deixar essa decisão para depois, não só para poder começar logo, mas também para ter mais informação na hora de estruturar o modelo. Outra atitude saudável é co-investir com outras grandes empresas da mesma cadeia.

Ah! Cooperativas ou organizações sem fins lucrativos (associações ou fundações) também podem atuar de maneira semelhante a corporate ventures, tá? Talvez precisem de uma mudança estatutária, mas recomendo deixar essa questão para quando já houver alguma startup que valha o esforço.

3 Startups formadas por colaboradores, sem relação societária

Ok, vamos partir da premissa que sua organização já passou da fase dos concursos de ideias, competições de inovação e outras drogas leves, tá? Nelas, a empresa finge que inova e o funcionário finge que contribui com essa inovação (que sequer existe).

Agora você está querendo que seus colaboradores realmente desenvolvam novos produtos. A primeira medida é permitir que eles tenham (MUITO) tempo livre para fazer isso. Vai ser preciso combinar essa aventura com os gestores todos, aliviar as metas de um pessoalzinho destemido, permitir que eles errem muito e não deem resultado algum. Como assim? É isso aí. Se botar a pressão do resultado financeiro ou de evolução de market-share, não vai  funcionar. A ideia aqui é que eles tragam aprendizado para o resto da organização. É o que chamamos de contabilidade da inovação. Quais hipóteses sobre as necessidades de nossos clientes se provaram verdadeiras? E, mais importante: quais não foram validadas? Por quê? O que deu errado? Que testes de mercado e quais métricas utilizamos para descobrir tudo isso? Lembre-se que startup nada mais é do que uma organização temporária (um grupo de pessoas) criada para investigar um novo negócio com potencial de crescimento.

Um aspecto importante é que essas startups internas sejam formadas por pessoas com vários backgrounds e oriundas de áreas diferentes. Também recomendo dar liberdade para essas pessoas se apresentarem a potenciais clientes como empreendedores de uma startup fictícia, com nome, marca e tudo mais, para não gerar expectativas em relação à organização-mãe. Outra boa prática é contratar alguém que já tenha empreendedido do zero para participar dessa equipe de rebeldes, que não precisa prestar contas da maneira como o resto da organização está acostumada. E não confunda startup interna com departamento de inovação! São coisas diferentes!

Em alguns setores, como alimentos e cosméticos, temos um desafio extra ligado a segurança. Se exigirmos que o novo produto siga todas as normas e tenha todas as licenças para ser testado no mercado, matamos a inovação na origem. O jeito é operar abaixo do radar, em escalas minúsculas, por um tempo. Lembre-se que as grandes empresas de alimentos um dia fabricaram na cozinha de casa ou no restaurante do amigo.

4 Startups formadas por colaboradores que também são seus sócios

É coisa pesada. Pouca gente tem coragem de experimentar esse modelo.

Se você já tentou criar startups internas, sabe que é muito difícil alinhar interesses entre equipes de intraempreendedores e a organização-mãe. Na maior parte dos casos, é mesmo impossível criar um sistema de incentivos que funcione. O time de loucos acaba pegando nojo da estrutura burocrática, dos comitês de inovação que não aprovam nada muito ousado. Os melhores vão embora para serem startupeiros de verdade. E depois de um tempo ainda querem o emprego de volta. Um saco.

Enfim, hora de voltar àquelas questões culturais e comportamentais que mencionei lá no começo do texto. O que realmente pode mudar o jogo dentro da sua empresa é ter, um dia, uma estrutura de governança da inovação que seja leve e flexível. Que permita à organização-mãe ser sócia (majoritária ou minoritária, a depender do caso) de seus próprios colaboradores que, por sua vez, estão amarrados em uma espécie de contrato de vesting. Em outras palavras, se a startup começar a dar certo, a participação deles nos lucros do novo negócio cresce. Se der errado, diminui. E eles continuam tendo que repassar os aprendizados sobre o mercado investigado à mãe. Aqui é preciso avaliar várias formas de contratualização e considerar cláusulas como exclusividade, não-concorrência, entre outras. O risco legal e contratual vai ser grande, de qualquer maneira.

Não é para amadores, mas pode dar muito certo.

AÇÕES SUGERIDAS PARA A SUA CÉLULA DE INOVAÇÃO

As quatro formas de intraempreendedorismo que eu mencionei dependem de um elevado grau de engajamento por parte da alta gestão e até mesmo dos acionistas. Para você, que não é dirigente, e faz parte de uma célula de inovação em estágio inicial, elas podem servir como um objetivo futuro. Quem sabe um dia sua organização chega lá?

O que você pode fazer, então, para permitir que os primeiros passos sejam dados em cada uma das quatro possibilidades que descrevi acima?

1 – Escolha um problema gerencial ou operacional e promova casamentos com startups que resolvem, de alguma forma, esse problema. Sabe aquele sistema de folha de pagamento que nunca funciona na sua empresa? Ou aquela máquina que é sempre o gargalo da produção? Que tal procurar empresas inovadoras que vendam soluções que seriam compatíveis com esses desafios? Para conhecê-las, vá a eventos de startups, procure em diretórios como Startse, AngeList, Crunchbase e CB Insights.

2 – Forme um clube de investimento em startups com seus colegas. Você sabia que com 1000 reais você pode investir em uma startup, utilizando sites de equity crowdfunding como Broota e EqSeed? Se a empresa ainda onde você trabalha ainda não está pronta para investir, se junte a seus colegas e faça pequenos aportes para aprender com essa experiência.

3 – Organize conversas com early adopters. Sabe aquele vegano descolado que sua empresa sonha em ter como consumidor? O atleta que cuida da alimentação como ninguém? Os pais modernos que não têm tempo para cozinhar? Dividam-se e passem tempo com essas pessoas para conhecê-las melhor, sem o compromisso de ter uma ideia genial a partir desse convívio. Talvez possa surgir daí uma oportunidade de negócio para sua empresa.

4 – Mapeie a governança de inovação na organização onde você trabalha. Como são tomadas as decisões sobre inovação? Quem as toma? Quais os critérios? Com que frequência acontecem? Faça diagramas e mostre esse trabalho para os gestores.

Igor Oliveira é sócio-fundador da Semente.

Publicado originalmenteno no site Sra Inovadeira na série “Como Estimular a sua Empresa a ser mais Inovadora”, dia 22 de agosto de 2017.

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