Se analisarmos a história dos hedge funds, desde seu surgimento no pós-guerra até os anos 2000, podemos notar dois padrões. O primeiro é a crescente complexificação da tarefa de ganhar dinheiro nos mercados globais. O segundo é a constante variação entre duas macro estratégias que se revezam como vencedoras: o foco na busca pelo melhor ativo para se investir e o foco na busca pelo grau ótimo de comprometimento do patrimônio investido em mercados relativamente eficientes, ou seja, quão “comprado” ou “vendido” devo estar a cada momento. A cada novo ciclo do mercado de capitais, com seus novos heróis, uma dessas duas estratégias prevalece.

Um bom ponto de partida para entender essa história é o livro More Money Than God, do britânico Sebastian Mallaby. Uma obra que, confesso, li com baixíssima expectativa e que hoje volta à minha mente com grande frequência.

No ano passado, A Grande Aposta mexeu com o imaginário de muita gente ao retratar os primeiros gestores de fundos a aproveitarem a crise das subprimes americanas em 2007. O filme estabelece uma relação um tanto romântica com esses personagens, dando a entender que, ao final da história, alguns deles se sentiam culpados por ter ganho dinheiro em cima de uma crise que prejudicou o povo. Um deles, Michael Burry, tem recentemente focado seus esforços em entender oportunidades relacionadas à crise da água.

Muitos investidores no mundo todo têm dedicado seu tempo a destrinchar a complexidade de questões sociais e ambientais e de avanços socioeconômicos promovidos por novas tecnologias e startups. Isso inclui novas formas de transacionar informações e recursos, como blockchains. Minha tese é que, nas próximas décadas, a arte de conseguir rendimentos acima do normal virá muito mais disso do que da detecção de falhas nos mercados mais tradicionais, aquilo que os melhores gestores do século XX fizeram.

O lado bom dessa tendência é que aumenta o grau de subjetividade envolvido, o que permite que investidores exerçam seus valores pessoais. Assim como Burry, que ficou curioso pela questão da água por se morador de uma região que sofre com a seca, sua vida tende a estar muito mais refletida em seu portfólio de investimentos daqui para frente.

Igor Oliveira é sócio-fundador da Semente.

Publicado originalmente no jornal Zero Hora em 29 de julho de 2016.