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Ecossistema,  Inovação

Ecossistema Empreendedor: 6 caminhos para potencializar a inovação

O empreendedorismo inovador é uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento socioeconômico regional, pois promove a competitividade, incentiva a melhoria em produtos e serviços de empresas de diversas indústrias, gera mais e melhores postos de trabalho, maior valor econômico e melhora a vida da população. Entretanto, para que o empreendedorismo inovador consiga emergir e se consolidar, é necessário um contexto que contribua para o sucesso desses empreendimentos. Podemos chamar esse contexto de ecossistema empreendedor.

Os ecossistemas de empreendedorismo são formados por um conjunto de elementos inter-relacionados que estimulam a criação e dirigem a qualidade dos novos negócios, contribuindo para o surgimento de empresas de sucesso, que servirão de inspiração a novos empreendedores. Em ecossistemas mais desenvolvidos essas empresas podem ser caracterizadas como inovadoras, pois possuem o conhecimento aplicado (tecnologia) como principal ativo e potencial de alto crescimento e impacto. Daniel Insenberg, da Babson College, define o ecossistema empreendedor em 6 domínios:

  • Políticas Públicas: este domínio não está ligado a ideologias ou partidarismo, mas sim ao papel das políticas públicas na facilitação do caminho que já está sendo trilhado pelo ecossistema, por meio da diminuição da burocracia e outros obstáculos à atividade empreendedora, além da criação e implantação de leis que a favoreçam, tais como  a descriminalização da falência, a proteção de acionistas frente a credores, a criação e liberalização dos mercados de capitais e ao apoio aos desempregados;
  • Capital Financeiro: é fundamental que existam recursos financeiros acessíveis aos empreendedores, em especial capital de risco, onde o investidor também assume parte do risco. As aceleradoras podem auxiliar nesse processo ao proporcionarem aos empreendedores inovadores e suas startups acesso a financiamento inicial, bem como mentoria, capacitação e networking.
  • Cultura: abertura à experimentação e adoção de inovações ainda não totalmente consolidadas, tolerância à falha e uma atitude pró-empreendedorismo são elementos culturais importantes, não só diminuindo o estigma de empreender, mas incentivando a escolha desta trajetória. Divulgar casos de sucesso, promover eventos e reconhecer empreendedores são algumas iniciativas que ajudam a fortalecer uma cultura pró-empreendedorismo;
  • Suporte: aqui são contempladas entidades não governamentais de apoio aos empreendedores, profissionais de suporte especializados em startups e condições de infraestrutura. Se encaixam neste domínio parques tecnológicos, incubadoras, aceleradoras e organizações que fomentam o empreendedorismo, como o próprio Sebrae; advogados, contabilistas, mentores e consultores especializados em startups, como nós da Semente Negócios; e, ainda, condições de telecomunicação, transportes, logística, energia e segurança;
  • Recursos Humanos: nesse domínio entram tanto a capacitação de empreendedores quanto a oferta de trabalhadores qualificados para as startups, contemplando universidades, faculdades e cursos livres ligados ao empreendedorismo e à inovação.
  • Mercado: finalmente, o domínio mercado inclui as relações entre startups e grandes empresas, as redes formadas pelos empreendedores e o próprio mercado consumidor em geral. Grandes empresas podem ser fonte de experiência, investimento e contratos,, enquanto as redes entre empreendedores permitem aos empreendedores acessarem novas oportunidades e aprendizados, o que pode ser facilitado pela proximidade geográfica e senso de comunidade.

Entendendo os diferentes domínios de um ecossistema empreendedor favorável à inovação, via criação de startups e seu crescimento e consolidação como empresas inovadoras, trago algumas sugestões de iniciativas para fortalecer o diferentes ecossistemas do País, respeitando, obviamente, suas particularidades:

  1. Focar em programas de empreendedorismo e políticas governamentais na consolidação de startups em empresas inovadoras. Impostos são recolhidos e bons empregos são gerados quando as startups crescem e se consolidam como empresas inovadoras, e não quando surgem cercadas de incertezas. Além disso, casos de sucesso são um incentivo enorme para novos empreendedores.
  2. Priorizar iniciativas públicas que atuem em falhas de mercado explícitas, e quando houver condições e competência para tanto. Por exemplo, existe uma lacuna de acesso a capital de risco no ticket de R$500 mil a R$1 milhão. O FINEP Startup é um exemplo de iniciativa governamental que busca atuar nessa lacuna, mas muito ainda precisa ser feito para dar vazão às oportunidades de negócios que existem nesse estágio. Indo mais além, não acredito que seja papel do poder público resolver esse problema sozinho, nem dessa forma. Mais do que financiar, o poder público deve ajudar na construção dos alicerces para que haja um quadro institucional favorável a investimento de risco no País – em outras palavras, não deve dar o peixe, mas ensinar a pescar;
  3. Difundir um conceito alinhado do que são startups (organizações temporárias em busca de um modelo de negócio viável em um contexto de inovação e muitas incertezas) e empresas inovadoras (as startups que conseguiram encontrar o modelo de negócio viável!) pode ajudar legisladores a serem mais precisos na extinção de leis sem sentido e na criação de outras de incentivo.  Atualmente existem diversos projetos de lei para dar suporte às startups circulando, mas muitos mal desenhados, inconsistentes com outras regulações e/ou muito difíceis de aprovar e implantar por esta dificuldade de entendimento;
  4. Promover o envolvimento de grandes corporações e outras organizações estabelecidas com o empreendedorismo inovador regional, via programas de conexão e conteúdo. A sua importância para o surgimento e crescimento de startups é inegável, seja para promover networking, mentoria, investimento ou negócios entre as partes;
  5. Incentivar a internacionalização. A internacionalização de negócios não traz apenas crescimento da base de clientes, mas também melhoria na gestão e na própria tecnologia do produto, que precisam evoluir para atenderem às exigências de competitividade internacional;
  6. Conectar mais intensamente incubadoras com o restante do ecossistema, e vice-versa. Normalmente, startups que surgem a partir de spin-offs acadêmicas e estão incubadas em universidades são ligeiramente mais tecnológicas do que a média, já que foram desenvolvidas muitas vezes a partir de pesquisa científica. As incubadoras deveriam ser grande fonte de pipeline para aceleradoras e investidores anjo, e fortalecer sua aproximação com o mercado, o que ainda acontece em baixíssima escala.

Finalmente, é necessário considerar as especificidades de cada ecossistema empreendedor. Mesmo em um mesmo país, onde o ambiente regulatório é parecido, há condições econômicas e sociais completamente diferentes, gerando configurações distintas e específicas. Não é recomendável copiar e colar práticas de um lugar para outro esperando que tenham o mesmo resultado do ecossistema de origem. Esta é uma receita para o fracasso e desperdício de recursos escassos e importantes.

A estrutura do ecossistema é diferente em diferentes regiões, e é importante verificar como as diferentes interações entre os domínios reproduzem ecossistemas diferentes.

Para replicar boas práticas de um ecossistema, deve-se primeiro entender muito bem a configuração, tanto do ecossistema base quanto em quais praticas serão adotadas, para que, assim, tenham resultados positivos.

 

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César Costa é sócio e gestor de inovação na Semente Negócios

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