Depois de cinco anos empreendendo e ajudando empreendedores, tem ficado cada vez mais clara para mim uma lógica que descrevera Schumpeter: oportunidades de negócio são falhas de mercado vistas por empreendedores, que passam a criar valor ao resolver problemas ou gerar benefícios em um determinado contexto. Para quem não dispõe de cinco anos, um autor que descreve esse processo com maestria, do ponto de vista do empreendedor, é Daniel Isenberg em seu revolucionário Worthless, Impossible and Stupid: How Contrarian Entrepreneurs Create and Capture Extraordinary Value (ainda não lançado no Brasil).

Olhando, por exemplo, para o cenário gaúcho, podemos identificar falhas de mercado gritantes em diversos setores. Para nomear alguns que tenho estudado e que claramente pararam no tempo: supermercados, agricultura de grande escala, além de segurança, saúde e educação privadas. Por que, então, não estão surgindo soluções inovadoras nesses setores aqui no estado?

Há fatores estruturais que impedem a emergência dessas soluções. Os que são frequentemente citados como culpados são escassez de capital financeiro e de capital humano. Para ser honesto, penso que não falta dinheiro nem gente qualificada. Nosso problema está sobretudo ligado a capital social e ao tipo de falha de mercado que encontramos por aqui.

Isenberg divide os ecossistemas de empreendedorismo entre aqueles onde há e aqueles onde não há recompensa pela adversidade superada pelo empreendedor. No RS, vivemos o segundo caso. O poder de reação das grandes estruturas que dominam cada setor da economia gaúcha é desproporcionalmente maior do que o poder dos empreendedores. Células descentralizadas de inovação (startups e afins) não conseguem destruir grandes engrenagens, porque o campo social, deformado por sistemas de influência muito fortes, não permite. São cartéis, entidades de classe e instituições concentradoras de recursos, inclusive estatais. Precisamos urgentemente conversar sobre o papel dessas estruturas e mirar um futuro sem elas.

Igor Oliveira é sócio-fundador da Semente.

Publicado originalmente no jornal Zero Hora em 25 de março de 2016