É evidente a falta de produção de conteúdo nacional a respeito de incubadoras: são raras as fontes confiáveis que tratam do tema, existe pouca cobertura midiática e, principalmente, são escassos os estudos aprofundados.

Com isso, existe um grande gap de conhecimento sobre incubadoras: não há clareza quanto ao conceito, muitas vezes confundidas com parques tecnológicos ou aceleradoras e a falta de dados atualizados (o último mapeamento do setor é de 2012) impede uma análise adequada deste mercado.

Fica a pergunta: qual é a situação atual das incubadoras no país? Como serão as incubadoras em 5 ou 10 anos? E quais serão os próximos passos até lá?

Para ajudar a responder essas perguntas resolvemos trazer a perspectiva da Semente, a partir da nossa experiência trabalhando com incubadoras desde 2011, aliadas a tendências apontadas em estudos de referência nacionais e internacionais.


O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) recentemente mapeou oito aspectos considerados como as melhores práticas, que estariam estritamente ligadas ao sucesso de uma incubadora:

Melhores práticas de incubadoras

Fonte: MCTI (2015)

Nesta pesquisa, foram entrevistadas 18 incubadoras espalhadas pelo Brasil que realizaram uma auto avaliação em 8 critérios. Segue a tabela abaixo com as médias das avaliações (de 1 a 5) em cada um dos critérios:

Critério Nota
Atração de Empreendimentos 3,2
Governança 3,0
Gestão 2,7
Posicionamento na Região 2,6
Serviços de Desenvolvimento Empresarial 2,5
Acompanhamento das Incubadas 2,5
Rede de Parceiros 2,4
Modelo de Sustentabilidade 1,9

Somente 2 dos 8 critérios tiveram nota acima de 3 (governança e atração de empreendimentos). Este resultado demonstra que ainda há um longo caminho de evolução por parte das incubadoras no país.

O pior aspecto avaliado foi o modelo de sustentabilidade, com nota 1,9. Ou seja, grande parte das incubadoras ainda possui grande dificuldade em encontrar diferentes formas de financiamento que promovam a independência de atores únicos, especialmente do setor público.

A pesquisa do MCTI também entrevistou empresas incubadas que reconheceram como principais valores agregados pela incubadora: a marca da incubadora e os serviços de apoio. No entanto, quando questionados se os serviços oferecidos pelas incubadoras realmente ajudavam, 32% responderam que os serviços ajudavam pouco ou nada os seus empreendimentos. Ou seja, um terço das empresas incubadas acha que a incubadora não ajudou no desenvolvimento dos seus negócios.

Sendo assim, pode-se concluir que existe uma carência forte na prestação de serviços ao incubados.

incubadora do futuro

Visões internacionais

Segundo Emily Fetsch, da Kauffman Foundation, as promessas das incubadoras são claras: espaço, networking e serviços. No entanto, a maioria delas possui menos de 2 colaboradores full-time para lidar, em média, com 25 empreendimentos, o que acaba impossibilitando a entrega de todos os serviços idealizados. No Brasil, diversas incubadoras (principalmente aquelas vinculadas a universidades) não contam com equipes de gestão com dedicação exclusiva e, muitas vezes, este trabalho acaba dependendo de professores e bolsistas, que não possuem experiência para transformar startups em negócios.

De acordo com Sramana Mitra, em seu artigo da Harvard Business Review, para que as incubadoras possam aproveitar completamente o seu potencial econômico, elas precisam superar duas armadilhas: oferecer real impacto para as incubadas, e não somente um espaço de trabalho, que atualmente possui cada vez menos valor em um mundo de coworkings e home offices; e a capacidade de mensurar o sucesso de suas incubadas.

A nossa visão sobre as incubadoras

Para a Semente Negócios, o modelo de incubadoras focado em infraestrutura não se sustentará no futuro, uma vez que esta não é mais vista como um valor importante pelos empreendedores. Já vemos várias incubadoras com dificuldades para encher suas salas ou incubando empresas que não são de base tecnológica. Na nossa visão, o real valor das incubadoras está na prestação de serviços de qualidade capazes de gerar real impacto nas empresas incubadas.

Para isso, é preciso oferecer conteúdo de desenvolvimento de negócios aos incubados, focados nas necessidades dos empreendimentos de estágio inicial, fornecendo ferramentas adequadas para ajudá-los no acesso a mercado. Outro ponto fundamental para o sucesso das incubadoras é acompanhamento de perto das empresas incubadas para identificar necessidades latentes, utilizando indicadores e analisando o seu crescimento ao longo do tempo.

A incubadora do futuro também utilizará melhor os recursos do seu ecossistema, especialmente a academia, auxiliando no acesso a laboratórios e grupos de pesquisa, no networking com empresas estabelecidas e facilitando o recrutamento de mão de obra qualificada.

Assim, a incubadora tem o potencial de ser o espaço perfeito para empresas de alto potencial que são baseadas em pesquisas acadêmicas, as chamadas “science-based startups”, tentando fazer acontecer o mito dos spin offs acadêmicos no Brasil e transformando cada vez mais artigos científicos em empresas de alto impacto.

Bruno Peroni é sócio da Semente Negócios