Nos últimos 8 anos, as metodologias utilizadas para ensinar inovação e novos negócios mudaram radicalmente. As abordagens enxuta (lean) e ágil (agile), que permeavam o mundo do desenvolvimento de software e da gestão de projetos, invadiram o mundo dos negócios. Atualmente, se ensina o Business Model Canvas, metodologias de contabilidade de inovação e de desenvolvimento com os clientes em MBA’s das grandes escolas de negócio com muito mais profundidade do que se ensina planos de negócio. Mas até poucos anos atrás, quando começamos a Semente, o quadro era bem diferente.

As principais metodologias que influenciam essa transformação, o Customer Development e o Lean Startup, foram desenvolvidos por práticos do empreendedorismo. Steve Blank, criador do Customer Development, deu início ao movimento com a publicação, em 2005, do livro The Four Steps to the Epiphany, onde analisava os quatro passos que todas as empresas inovadoras passam antes de se tornarem de fato empresas.

Steve Blank é um empreendedor em série que fundou 8 empresas de tecnologia nos setores de semicondutores, computadores, games e sistemas para defesa, boa parte delas bem sucedida, sendo a principal E.piphany, uma empresa de CRM criada no meio da bolha da internet, que fez seu IPO avaliada em mais de US$1 bilhão. Sua metodologia prega o desenvolvimento de negócios e produtos inovadores junto aos clientes como maneira de reduzir os riscos de mercado e fornece um passo-a-passo de como empresas de tecnologia podem passar por esses estágios.

Eric Ries, criador do livro e movimento Lean Startup, um dos alunos e discípulos de Blank, fundou a IMVU, uma mistura de rede social e jogo online no estilo Second Life, fundada em 2004 e que em 2011 faturava US$40 milhões. Sua metodologia e filosofia partem do princípio de utilizar da melhor forma possível os recursos escassos de uma startup por meio de repetidos testes com os clientes sobre hipóteses e questões de produto e mercado que geram aprendizados validados.

Para mais informações sobre as metodologias, vale a pena ler o excelente artigo da Harvard Business Review sobre o assunto: Why the Lean Startup Changes Everything.

A título de curiosidade, o livro de Blank está na posição 59 em livros de planejamento na Amazon enquanto o livro de Ries está em 1º na categoria de novos negócios. Enquanto Blank teve mais sucesso em suas empresas, Ries alcançou mais pessoas com seu livro.

steve blankeric ries Steve Blank e Eric Ries, respectivamente

Tanto a metodologia de Blank quanto de Ries hoje formam a base da suíte de ferramentas de empreendedores inovadores de qualquer setor, desde negócios de tecnologia até negócios sociais. Centenas de ferramentas de modelagem de negócios, como Business Model Canvas e Lean Canvas, de validação de mercado, como o Validation Board, e de desenvolvimento de produtos também surgiram nos últimos anos acompanhando o crescimento dessas duas grandes filosofias. Boa parte dessas metodologias surgiram nos Estados Unidos, em especial no ecossistema de empreendedorismo do Vale do Silício, um ambiente próspero e único e que tem criado boa parte das grandes inovações mundiais em tecnologia dos últimos 50 anos.

No Brasil, o ensino de empreendedorismo também tem sido transformado. As principais competições de empreendedorismo universitário do país já utilizam ferramentas de lean startup e o modelo de aceleradoras de startups foi importado em 2011 diretamente para o Brasil (hoje existem mais de 50 entidades que se chamam aceleradoras no país).

LeanStartup

A Semente teve papel importante nessa transformação, em especial no sul do Brasil, tendo realizado o primeiro curso de Lean Startup do país em outubro de 2011. Em parceria com incubadoras, parques tecnológicos e as três maiores universidades da região sul do país, além de diversos programas com o SEBRAE em 12 estados. Inserimos essas metodologias no dia-a-dia de muito empreendedores: entre 2011 e 2015, a Semente impactou mais de 6 mil empreendedores de mais de mil startups e empresas ensinando esses conceitos.

Porém, a realidade brasileira é bem diferente da americana. O ecossistema empreendedor brasileiro e suas comunidades de startups ainda são pouco desenvolvidas e o ambiente não poderia ser mais diferente:

  • O mercado brasileiro é muito mais fechado: a cultura de muitos empresários brasileiros ainda possui memórias dos tempos de reservas de mercado, onde inovar não era uma prioridade, mas sim uma cultura de eficiência, onde o foco é cortar custos e aumentar a margem.
  • A cultura de tomada de risco é baixa: excluindo-se os anos entre 2001 e 2008, o país possui uma economia instável que deixa os mercados retraídos e os juros altos.
  • Boa parte dos grandes negócios no Brasil são dependentes de relacionamentos: relações institucionais e governamentais são fundamentais para as principais cadeias de valor brasileiras (alimentos e bebidas, siderurgia, mineração, petróleo e gás, construção civil, etc.), tornando mais difícil o surgimento de desafiadores nestes mercados.
  • A maturidade tecnológica de empresas e pessoas ainda é bastante inferior: a adesão de canais de vendas online, distribuição digital de produtos e serviços e internet móvel, por exemplo, embora crescente, ainda é limitada no país.
  • O mercado de investimento de risco no Brasil é pouco maduro: a cultura financista e a ainda forte participação de investidores ligados ao governo torna o mercado avesso a investir em empresas sem uma promessa consistente de gerar fluxo de caixa positivo em curto prazo.

Mesmo com essas dificuldades, o mercado brasileiro já criou alguns cases de empresas inovadoras com alta capacidade de escala, como Buscapé, Movile, Terra e mais recentemente Conta Azul, Easy Taxi, Hotmart, além de várias outras estrelas que estão surgindo.

A partir da experiência de aplicar, ensinar e estressar as metodologias de Lean Startup e Customer Development, chegamos a alguma conclusões:

  • As metodologias que utilizamos são criadas para o mercado americano ou europeu: muitas vezes nos deparamos com adaptações que fizemos para contemplar as necessidades dos empreendedores brasileiros. Nenhuma das metodologias de novos negócios foram criadas em e para mercados emergentes.
  • Difícil de aplicar: a metodologia do Customer Development é muito bem detalhada porém muito complexa para ser compreendida e ensinada a um empreendedor iniciante, especialmente com perfil técnico. Já a metodologia de Lean Startup é mais uma filosofia, pois existem poucos exemplos de como aplicá-la no dia-a-dia de um empreendedor.

Por isso, decidimos criar uma metodologia própria, baseada nos conhecimentos criados em mercados mais maduros como EUA e Europa, para descrever a jornada dos empreendedores de uma maneira que fosse simples, objetiva e facilitasse o nosso propósito de revolucionar a educação empreendedora no país. Foi aí que surgiu o Caminho Empreendedor.

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O Caminho é uma metodologia própria da Semente de desenvolver negócios inovadores a partir da nossa experiência. O método mostra, na prática, o passo-a-passo da vida do empreendedor ao tentar desenvolver um negócio inovador, que:

  • Auxilia a identificar o momento que o negócio está
  • Explora quais são os principais desafios relativos ao desenvolvimento do negócio e do empreendedor
  • Fornece ações sobre como o empreendedor deve proceder para realizar cada etapa com qualidade e assim minimizar os riscos ao longo de todo o processo

O nosso objetivo é saber orientar qualquer negócio inovador ou startup a se tornar uma empresa inovadora, ou seja, um negócio que tenha criado um produto baseado em um problema real de um mercado sólido que tenha conseguido escalar sua operação.

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O Caminho Empreendedor possui seis estágios que caracterizam o desafio em cada etapa do desenvolvimento de um negócio inovador:

  1. Explorar: Neste estágio os empreendedores estão em fase de exploração de oportunidades, aprendendo com possíveis clientes e buscando um modelo de negócio que faça sentido e possa ser testado;
  2. Engajar: Neste estágio os empreendedores estão em fase de engajamento de um determinado público a fim de vali dar se há um número significativo de pessoas interessadas na proposta de valor e conhecê-las para definir seu posicionamento;
  3. Entregar: Neste estágio os empreendedores estão focados em entregar minimamente valor ao público-alvo, buscando resolver o problema da forma mais simples possível e verificar se as pessoas estão dispostas a pagar para resolvê-lo;
  4. Vender: Neste estágio os empreendedores estão em fase de comprovar se há um potencial negócio em suas mãos, e deverão validar um mercado suficientemente grande que sustente a demanda necessária para fechar a conta do produto ou solução;
  5. Crescer: Neste estágio o negócio está em fase de crescimento pois já possui um bom faturamento e encontrou um padrão de venda, mas deve comprovar que há caminhos claros de escalar suas vendas e atingir resultados muito maiores;
  6. Estruturar: Neste estágio o negócio já pode ser considerado uma empresa pois já possui um ciclo definido de vendas num mercado já consolidado e por isso deve-se atentar em solidificar os seus processos e sustentar sua estrutura.

Para cada um desses estágios existem atividades específicas a serem realizadas pelo empreendedor, com conteúdos a serem apropriados e aprendidos para que se execute estas tarefas com a qualidade adequada. Ao realizar todas as atividades, o empreendedor conseguirá atingir o marco do estágio, que é o gatilho de passagem para o próximo estágio. Ao atingir os marcos, não necessariamente o empreendedor não deva voltar para os estágios anteriores. Muito pelo contrário, empreender não é um processo linear ou um jogo de fases. Na verdade, os estágios são cumulativos, e a medida que o empreendedor vai amadurecendo o seu negócio e passando de estágios, ele deve continuar atento às atividades anteriores e constantemente deve rever suas conclusões.

Todas as atividades, marcos e indicadores são apresentados no e-book do Caminho Empreendedor, que você pode baixar gratuitamente no nosso site.

Esta metodologia é aplicada em todos os programas desenhados pela Semente, o que facilita desenvolvermos um programa preciso, eficiente e claro, que realmente seja relevante no desenvolvimento dos empreendedores e seus negócios.

E aí, o que achou? Nos dê sua opinião!

Até a próxima! 😉