Recentemente, nesse blog, fiz um post sobre o futuro das incubadoras e como elas devem focar em prestar serviços de qualidade e focarem em startups científicas para realmente funcionarem. Agora resolvi escrever sobre as aceleradoras.

Vou fazer uma série de 5 posts. Nesse primeiro, vou falar um panorama geral e nos demais vou detalhar as 4 principais tendências de modelos para o futuro.

Tenho uma boa experiência com aceleração. Como um dos fundadores da WOW, que considero uma das principais aceleradoras do País atualmente,  e tendo tocado o processo durante mais de um ano, tive oportunidade de interagir com investidores, empreendedores e governo para entender as principais tendências do setor. Atualmente, participo do Conselho da WOW.

Vou tentar compartilhar um pouco da minha visão de futuro das aceleradoras.

 

Uma breve história das aceleradoras no Brasil

Tudo começou em 2012 com a 21212, primeira aceleradora estruturada do país, que tentou dar um Ctrl C + Ctrl V no modelo americano de aceleração e entrou forte no mercado. A 21212 inspirou muitos investidores e empreendedores a criarem um modelo parecido. Inspirou, inclusive, a WOW. Na metade de 2013, quando a WOW foi lançada, já haviam mais de uma dezena de aceleradoras no país.

Por aqui, o que foi o estopim para o que eu chamo de “a bolha das aceleradoras” foi o programa Startup Brasil. O programa fornecia R$200 mil em subvenção para empresas que passassem por um processo seletivo e decidissem participar de um programa de aceleração das aceleradoras credenciadas pelo programa. Ou seja, o governo subsidiava o risco das aceleradoras, que investiram, em média, R$36 mil por empresa e aquela empresa recebia mais um bom aporte. Dezenas de aceleradoras foram criadas só para o programa e o País chegou a ter mais de 50 entidades que se denominavam aceleradora.

Startup Brasil

Números da primeira turma do Startup Brasil

Mas… tudo tem um lado ruim. Terceirizando a seleção para o Startup Brasil, muitas aceleradoras acabaram selecionando projetos em estágio muito inicial ou que eram um pouco fora do seu foco. Como havia +R$200 mil na jogada, a maioria das aceleradoras dizia: “eu aceito”. Outra questão perversa que aconteceu foi que, ao ter o poder de aceite dos empreendedores, a aceleradora tinha um grande poder de barganha. Ouvi de casos que a aceleradora “investiu” R$30 mil “em serviços” por mais de 30% de participação. Enfim, o programa gerou uma série de vícios que ainda vou aprofundar em uma análise. Claro que algumas empresas deram e estão dando resultado mas, para as aceleradoras, o programa criou incentivos ruins.

A questão é que ele está congelado desde o início de 2015 devido a questões orçamentárias do governo federal e isso pegou as aceleradoras de surpresa, que contavam com os benefícios de ter um pipeline de empreendedores gratuito, por exemplo. E isso está gerando muito problemas.

 

O problema foi o modelo de negócio

Por mais contraditório que seja, o que matou (e ainda vai matar) muitas aceleradoras foi o seu modelo de negócio, que é aquilo que mata também boa parte das startups. A maioria das aceleradoras tinha dinheiro para rodar 1 ou 2 ciclos de aceleração ou então prometeram retorno rápido aos financiadores. Muitos fundadores de aceleradoras acreditaram que teriam saídas lucrativas para financiar o processo de aceleração, o que não aconteceu.

Aí tiveram 2 opções: fechar as portas ou sobreviver vendendo serviços de consultoria enquanto as startups não viram, o que acaba desfocando o trabalho da aceleradora, que é aumentar o valor das investidas e ajudá-las a se tornarem negócios e obter mais financiamento.

Poucas aceleradoras até agora tiveram saídas (quando a aceleradora vende a participação com lucro) relevantes. Os principais casos ficam com a 21212 (que encerrou as operações) com a Zeropaper comprada pela Intuit e da Aceleratech com a Shipfy, comprada pela Axxado. Algumas outras aceleradoras tiveram saídas, mas ainda saídas pequenas (acquihires, quando uma empresa compra mais as pessoas do que a empresa) e pontuais que nem longe de servem para pagar a conta e dar retorno para os investidores. Na WOW, algumas saídas estão sendo negociadas mas segue a batalha!

Nos EUA, o cenário não é muito diferente. Pelo menos 10 aceleradoras já fecharam as portas, segundo o site Seed-DB e dos 127 (!) programas existentes 108 nunca tiveram nenhuma saída. E pouquíssimas aceleradoras concentram um valor gigantesco de exits: apenas 3 (Y Combinator, AngelPad e Techstars) possuem mais de US$100 mi em saídas e outras 5 possuem entre US$10 e US$60mi em saídas. É, claramente, um mercado do tipo winner takes all,  que também sofreu e está sofrendo com a bolha.

Ainda é cedo para dizer que o modelo falhou, mas claramente está falhando e se adaptando fortemente ao mercado. Isso já era previsto, mas está deixando vítimas pelo caminho.

Aceleradoras

O que vem por aí

Depois do pequeno estouro da “bolha das aceleradoras”, as aceleradoras que estão se destacando são aquelas que fizeram um modelo mais resiliente, como o da WOW, que desde o início financiou seu modelo em ciclos de 2 anos e conta hoje com uma rede de mais de 90 investidores pessoa física que apostam em startups. Mas e no futuro, quais serão os modelos?

Na minha opinião, os modelos que darão certo terão um ou mais dos seguintes elementos:

1) Modelo de investimento mais flexível e participativo: ficou claro que o modelo americano de ciclo de 3-4 meses não funciona no Brasil. O que está acontecendo é que os modelos estão se tornando cada vez mais flexíveis e com mais “mão na massa”. Acredito que para vencerem as aceleradoras terão que se tornar mais parecidas com os venture builders.

2) Especialização setorial: focando em um setor específico, a aceleradora consegue dar mais profundidade à rede e torna a oferta muito mais atrativa para os empreendedores. A nossa experiência com o Start-Ed da Fundação Lemann, mostra que programas setoriais são um excelente caminho para gerar impacto real.

3) Veículo de investimento de anjos: o grande trunfo da WOW foi este. Entender a aceleradora como um veículo, uma classe de ativo, para investidores anjo. É uma grande proposta de valor investir com mais 50 pessoas, que ajudarão a escolher os melhores empreendedores e a apoiarem com o melhor networking, sem falar da diluição de risco. É uma oportunidade perfeita para investidores.

4) Corporate ventures: com o crescente interesse das empresas pelo mundo das startups, inclusive nos Estados Unidos, onde mais de 200 empresas já possuem veículos de investimento próprios. Certamente algumas aceleradoras irão aproveitar essa oportunidade para auxiliar as grandes empresas a buscarem oportunidades de negócio interessantes e sinérgicas. A questão é: como conciliar essa oportunidade com os conflitos de interesse dos investimentos próprios?

 

Todas as aceleradoras estão fazendo diversas mudanças e adaptações em seus modelos e só o tempo dirá qual será mais adaptável ao Brasil, mas tenho forte convicção que os modelos vencedores vão incorporar essas 4 tendências.

No próximo post da série, vou detalhar o modelo de venture building.

Bruno Peroni é sócio da Semente Negócios