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Estou confuso, o que é um Negócio de Impacto Social?

Eu não gosto muito de suspense. Decidi começar pelo fim: eu não sei o que é um Negócio de Impacto Social. Mas quer saber? Acho que ninguém sabe…

Oi, eu sou o Juliano Trevizan e estou verdadeiramente honrado que você esteja dedicando seu precioso tempo para ler o que escrevi. E espero que daqui a 5 minutos você esteja tão confus@ quanto eu.

Venho trabalhando há alguns anos com empreendedorismo, mais especificamente na “rubrica” impacto social. Já acompanhei individualmente algumas centenas de pessoas e empreendimentos, e atualmente atuo em dois programas que apoiam 130 negócios de maneira intensiva. Eu sei, é bastante. Minha caixa de emails também sabe.

Pra começar, quero avisar que minhas palavras não são técnicas. Se você quer uma leitura assim recomendo a dissertação do meu sócio Marcio Jappe, Google it 🙂

Mas enfim, o que é mesmo um negócio de impacto social?

Importante falar que esse conceito surgiu a partir de outro conceito, o de negócios sociais, criado pela lenda viva Muhammad Yunus. Um negócio social tem uma definição clara, proposta pelo Yunus, em que um ponto chave é que o negócio deve reinvestir 100% do lucro na própria empresa. O que aconteceu foi que o mundo ocidental gostou dessa pegada social e adaptou o conceito, inserindo o “impacto” e dando, nessa nova concepção, a liberdade aos empreendedores para fazerem o que bem entenderem com o lucro do negócio.

Tendo isso posto, vamos por partes, como diria o Jack.

Na escola eu tive um professor de história que sempre dizia que palavras compostas são autoexplicativas. Ele falava: “Um meio de produção é um MEIO – DE – PRODUÇÃO. Um modo de produção é um MODO – DE – PRODUÇÃO”. Assim fica fácil né?

A base da definição tá na cara. São NEGÓCIOS (na verdade, pessoas) que escolhem focar seus esforços em gerar um IMPACTO para a SOCIEDADE. Agora que impacto é esse? E que sociedade é essa?

Aí que tá. É tão difícil definir esse conceito porque existem muitas variáveis subjetivas, como por exemplo, o que é um impacto “positivo”. É aquela coisa, cada um tem sua opinião e argumentação, e quando se trata de definir o que é “bom” as divergências vêm à tona.

Para exemplificar esse dilema trago alguns exemplos: a Meu Copo Eco produz copos reutilizáveis, em substituição aos copos descartáveis. Eles calculam já ter evitado o desperdício de mais de 1 bilhão de copos descartáveis. No entanto, a empresa não deixa de ser uma fábrica de copos. Aqui temos uma boa discussão, não acha?

Agora temos uma empresa que trabalha com agricultura. Ela quer tornar esse mercado mais eficiente, produzindo alimentos mais resistentes às intempéries, assim o agricultor será beneficiado e teremos mais comida a menor preço. Será a Monsanto um negócio de impacto social?

Vamos por outro caminho: digamos que eu encontro uma cidade com alto nível de pessoas sem ocupação. Então eu decido criar uma fábrica, e gero um alto nível de empregabilidade. Serão as montadoras negócios de impacto?

Viu como é subjetivo? Sempre vão existir argumentos mostrando ser “positivo” ou “negativo”. Há quem chame isso de luz e sombra, e o que quero dizer é que a questão não é essa. Eu mesmo falo muito em “impacto positivo”, mas sei que esse é um discurso falido. E como fazemos para definir o que é um negócio de impacto social?

Depois de analisar o “impacto”, precisamos entender o “social”. Para quem nosso esforço é direcionado? Aqui partimos da premissa que vivemos em um país (e um mundo) com desigualdade social, portanto existem negócios que irão estreitar essa lacuna de desigualdade e outros que irão alargá-la.

Por exemplo: um negócio de educação que prepara estudantes para o vestibular em alto nível, cobrando um valor hora de R$ 100,00. Ele deixa seus clientes muito felizes, pois têm uma alta taxa de aprovação e eles vão viver seus sonhos. Isso é impacto certo, permitir que as pessoas vivam seus sonhos? Mas e quem não pode pagar pelas aulas? Essa lacuna social não vai ficar ainda maior?

Agora, digamos que eu tente estreitar a lacuna, criando uma companhia aérea com baixíssimos custos. Isso permitirá que mais pessoas viajem, revejam suas famílias, criem novas possibilidades. No entanto, para essa empresa funcionar ela precisa de altíssimos volumes de passageiros, o que acaba inflando os aeroportos e potencialmente prejudicando passageiros de outras companhias aéreas. E aí, é bom para a sociedade?

Definir o que é ou não impacto social é subjetivo e não há um conceito globalmente aceito. Academicamente isso se chama “conceito em disputa”. Assim, cada instituição que quer trabalhar com esse “tema” cria sua própria regra. Para alguns, precisa focar nas classes CDE (base da pirâmide). Para outros, tem que ser escalável (crescer muito rápido com custos não proporcionais). Tem quem defenda que ONGs também são negócios de impacto. Mais recentemente o que anda em pauta são as ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis), propostas pela ONU, que ajudam a entender que “melhorias” o mundo mais precisa.

Tudo isso ajuda, direciona, mas não resolve a questão. O que é um negócio de impacto social?

Esse debate é importante para, primeiro, entendermos o óbvio: TODA EMPRESA gera impacto social. A diferença não está na geração do impacto, mas no QUERER gerar um impacto específico, tendo isso como PRIORIDADE através de sua ATIVIDADE PRINCIPAL (seu produto).

Empreendedores de negócios de impacto social entendem de maneira integral o movimento que sua entrada gera na sociedade, realizando, de maneira estruturada ou não, uma teoria de mudança e uma posterior avaliação de impacto. É preciso entender que não basta analisar o que fazemos, mas também as potenciais consequências das nossas ações. Olhar não só para o final do processo, mas para o processo em si. Empresas como a Mercur estão nos ajudando a entender como inclusive empresas centenárias podem se reinventar e serem negócios de impacto social porque QUEREM ser. Antes tarde do que mais tarde.

Vamos deixar claro: ser um negócio de impacto não é apenas resolver um problema/necessidade socioambiental, mas escolher tratar o “impacto social” como um ponto central e estratégico do negócio, como orientador da tomada de decisão. É preciso avaliar algo prático, que é reflexo de um processo pessoal e interno. E enquanto negócio, buscar enxergar tanto o processo quanto o resultado, e avaliar periodicamente as implicações de sua existência na sociedade como um todo (mais difícil do que só ganhar dinheiro, né?).

Mas sabe do que? O mais incrível é que grande parte d@s empreendedoras(es) de impacto nem se reconhecem como tal. Eu acho isso o máximo! Essas pessoas estão resolvendo os problemas e necessidades que existem por aí, sem previamente se encaixar em algum conceito… Apegue-se às necessidades, não às ideias.

O importante aqui é saber que um(a) empreendedor(a) de impacto social precisa ter um conhecimento, duas habilidades e uma atitude:

  1. C) conhecimento de CAUSA (empatia através da imersão),
  2. H) um alto nível de EXECUÇÃO (fazer fazer fazer),
  3. H) a capacidade de se QUESTIONAR constantemente (avaliar suas decisões e seu impacto),
  4. A) a atitude de nunca perder de vista seu PROPÓSITO (e ressignificá-lo diariamente).

Lembre-se: FEITO > perfeito e POR QUÊ > o quê.

A intuição decide, a mente planeja, as emoções motivam e o corpo faz.

Se você quer criar um negócio ou transformar sua empresa em um negócio de impacto social, tenho uma dica: estruture bem sua teoria de mudança, entenda quais são suas métricas de impacto e vá coletando evidências do trabalho realizado. Ocupe-se então em resolver os problemas e necessidades do seu público, e o impacto ficará evidente.

Se você, assim como eu, ainda não sabe o que é um negócio de impacto social, mas escolhe ser a mudança que (você acha) que o mundo precisa, eu estou aqui para te ajudar! Lembre-se, você não precisa criar a mudança, você é a mudança.

Se esse texto te tocou, incomodou, te fez rir ou chorar, comenta aí! Quem sabe não surge aqui mais uma história?

Juliano Trevizan é sócio e consultor da Semente.

1 Comment

  1. Kaléu Puskas Diedrich Caminha

    22 de setembro de 2017 at 8:45 pm

    Juliano, fantástico.
    Tenho pensado muito sobre isso.

    Quanto mais caminho mais me parece que todo negócio é social, afinal, quando abrimos uma empresa escrevemos a nossa “Razão Social” lá. Mas é muito diferente quando o empreendedor sabe que o seu objetivo não é apenas o lucro. Se for apenas o lucro, acaba pendendo para negócios que fazem a sociedade mais corrupta, mais desigual e mais doente.

    Admiro muito o trabalho de vocês de preparar o empreendedor de dentro pra fora. Sucesso.

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