Uma das dúvidas que acometem gestores públicos e atores privados que almejam estimular a inovação em territórios é sobre o grau ideal de especialização econômica que devem buscar fomentar. Surgem questões como a seguinte: será que é melhor dominar o mercado de carnes abatidas nos padrões islâmicos ou produzir um derivado de alto valor agregado? A resposta, em casos como esse, provavelmente, é deixe os empreendedores e o mercado decidir.

Há, no entanto, um conjunto emergente de tecnologias que permitem apurar objetivamente os próximos passos de diversificação que determinadas cadeias e territórios têm a oportunidade de dar. A abordagem proposta por Hidalgo e Hausmann sobre complexidade econômica é muito útil para gestores da inovação nos setores público e privado.

Em algumas situações, as perguntas são um pouco mais difíceis. No Rio Grande do Sul, onde moro, por exemplo, apresenta vocações em cadeias e setores muito diversos, como produção de alimentos, tecnologia para saúde, moda, games. O que priorizar, afinal? Quão incisivos nessa priorização devem ser o poder público e os atores privados comprometidos com a inovação? Pouco. Normalmente, a formulação de políticas para a inovação peca por forçar uma clusterização artificial, impondo restrições desnecessárias a processos orgânicos de inovação.

Melhor é observar as potenciais sinergias entre setores nos quais já estão surgindo inovações no território. Para isso, é preciso estar atento – exercitando um olhar apreciativo – àquilo que já está emergindo. Empresários consolidados que estão adotando processos incomuns em suas operações, vanguardas de pesquisa nas universidades, startups desafiantes em mercados complexos.

É claro que o gestor de inovação não pode ser dar ao luxo de exercer um olhar completamente sem foco. Para praticar uma boa vigília da inovação, precisam listar alguns fenômenos emergentes e priorizá-los. Por exemplo, digitalização de processos na saúde local, ascensão do mercado asiático de simuladores realistas, produção de alimentos orgânicos próxima a centros urbanos.

O ideal é que, com o passar do tempo, a política de inovação de um território consiga estabelecer alguns objetivos mensuráveis. Dez milhões de dólares vendidos por empresas locais no mercado asiático de games até 2019, participação de 30% no mercado nacional de frutas e hortaliças orgânicas. Esse é o conceito difundido por uma nova escola de política de inovação liderada pela italiana Mariana Mazzucato. Isso tudo sem perder a possibilidade de incluir novos fenômenos e acontecimentos em seu radar.

Igor Oliveira é sócio-fundador da Semente.

Publicado originalmente no jornal Zero Hora em 12 de agosto de 2016.