O empreendedorismo inovador como ferramenta de desenvolvimento

Há pouco mais de 6 anos, a Semente Negócios foi concebida refletindo um desejo genuíno de impactar positivamente o mundo. Desde então o entendimento sobre o cenário desejado e a contribuição da Semente para atingi-lo evoluiu, graças à interação direta com mais de 7.000 empreendedores das 5 regiões do Brasil, de alguns países da América Latina e dos EUA, experimentando, testando, refletindo e aprendendo juntos. Sinto-me privilegiado por fazer parte desta trajetória, que me faz ver na prática e acreditar cada vez mais no empreendedorismo inovador como ferramenta de desenvolvimento.

Mas como atuamos para este desenvolvimento? Na Semente promovemos o desenvolvimento distribuindo capacidade de inovação para pessoas empreendedoras em diferentes redes e localidades, desenvolvendo empreendimentos inovadores, fortalecendo comunidades de práticas e trabalhando com para a emergência de ecossistemas empreendedores, para aumentar a complexidade econômica de territórios, e expandir liberdades e resiliência. Soa mais complicado do que é. Buscarei explicar como todos estes conceitos se encontram nos parágrafos seguintes.

Antes, precisamos entender melhor o contexto do qual estamos inseridos, para isso é necessário definir pobreza de forma ampliada. Uso como referência Amartya Sen, escritor e economista indiano no livro “Desenvolvimento como Liberdade”: “…a pobreza deve ser vista como privação das capacidades básicas em vez de meramente como baixo nível de renda”, ou seja, um problema mais complexo, que exige soluções que vão além de aumento do PIB e distribuição de renda, mas sim um aumento consistente das capacidades básicas (liberdades) das pessoas.

Assim como o crescimento do PIB e programas de redistribuição de renda não são condições suficientes para solucionar problemas econômicos e sociais de um território pobre e desigual, a diversificação de atividades econômicas de baixa complexidade, também não alcançam esse objetivo. Já o mix de produtos, o valor agregado e seu grau de complexidade nos dá uma indicação sobre a habilidade de um território em solucionar problemas em pequena e larga escala (aqui vale a pena conferir o trabalho do Observatório da Complexidade Econômica do MIT. Afirmar que o aumento dessa complexidade econômica (ou seja, a diversificação econômica associada à inovação) pode promover desenvolvimento humano em um território por longos períodos de tempo, faz sentido para mim.

E é aí que entramos. Há trabalhos da Semente em desenvolvimento territorial, aceleração, corporate ventures, mapeamento de ecossistemas empreendedores emergentes, etc. Navegamos no universo da inovação de forma “agnóstica”, ou seja, atendemos startups, negócios de impacto e organizações sociais inovadoras sem um julgamento a priori sobre formato organizacional ou “bandeira”, pois o empreendedorismo inovador está no centro do nosso impacto. Buscamos contribuir para a diversificação econômica gerada pelo empreendedorismo inovador e para a liberdade de autodeterminação individual e coletiva gerada pela ampliação das possibilidades e paradigmas de sucesso dentro de uma determinada realidade.

De forma bastante concreta, desenhamos e executamos programas de desenvolvimento de empreendedores e seus empreendimentos inovadores, em parceria com diferentes organizações (empresas, governo e terceiro setor).

A resolução de problemas reais e relevantes é intrínseca ao ato de empreender. E empreender de forma inovadora significa fazê-lo com mudanças em produtos, serviços, processos e/ou modelos de negócio que resultam em melhores soluções, ou seja, em mais valor para quem tem seus problemas resolvidos. Seja com abundância de investimentos ou por meio da presença, da observação atenta e da impulsão de soluções em comunidades. E é esta inovação que gera impacto, seja através de uma startup de tecnologia ou de um negócio de impacto.

A Semente atua em contextos locais desenvolvendo a comunidade empreendedora, entendida como uma comunidade de prática, ou seja, um grupo de pessoas com um interesse, problema ou paixão em comum e que aprofundam seu conhecimento e expertise através da interação contínua com troca de informações, insights, conselhos, resolução de problemas e diálogo sobre aspirações e necessidades. Antes das instituições, há pessoas cuja visão de mundo, acesso à informação e capacidade as permitem empreender. O fomento de um ecossistema empreendedor emergente deve focar nas pessoas e seu entorno.

Para fechar o ciclo e entender porque vemos nosso impacto na distribuição de capacidade de inovação, mencionarei novamente Amartya Sen, que considera que o processo de alargamento das liberdades de um indivíduo passa pela capacidade de participação em um universo social, econômico e político. Não se trata de uma liberdade em si mesma, mas uma liberdade direcionada a aspectos específicos, capazes de solucionar problemas cotidianos. A distribuição das liberdades é, portanto, uma distribuição de capacidades. Somente há possibilidade de criação de novos paradigmas de sucesso em contextos onde as capacidades de inovação estão distribuídas. E a Semente está aqui para ajudar neste processo, seguindo a linha:

  • Do empreendedorismo inovador como ferramenta de desenvolvimento, em coerência com o conceito de “Desenvolvimento como Liberdade” do Amartya Sen;
  • Do desenvolvimento que depende de maior complexidade econômica, que por sua vez depende do empreendedorismo inovador, que depende da resolução de problemas via comunidades de prática de pessoas empreendedoras em ecossistemas empreendedores emergentes;

Portanto, distribuir capacidades de inovação é a peça-chave na promoção do desenvolvimento, justamente o que fazemos na Semente ao desenhar e executar programas de desenvolvimento de empreendedores e seus empreendimentos inovadores em parceria com outras organizações.

O que acha da nossa proposta? Quer embarcar nesse caminho com a gente? =)

Espero os comentários de vocês para poder evoluir (ou simplesmente desenrolar) esta conversa!

Marcio Jappe é sócio-fundador da Semente.