imagem de um dedo prestes a apertar o botão de desligar do computador simbolizando o sonho empreendedor perdido
Opinião,  Startups

A maioria das startups não morrem, elas desistem

Nos últimos anos, tive a oportunidade de trabalhar com os mais variados perfis de negócios e empreendedores. No meu trabalho como consultora pude apoiar o desenvolvimento de startups, negócios de impacto e empresas de economia criativa. Em meio aos mais diversos mercados, modelos de negócios e propósitos conheci pessoas fantásticas, com ideias visionárias, que tinham tudo para dar certo, mas não deram.

Segundo informações do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), 15,4% das startups fecham já no primeiro ano de vida. E, entre o primeiro e o quinto ano, esse número sobe para 41,9%. Uma pesquisa recente da CBInsights, líder global em dados sobre startups, tecnologia e venture capital, apontou 20 motivos que levam as startups a fecharem suas portas, sendo os três principais:

  • O produto não atende a uma necessidade de mercado real;
  • Falta de dinheiro;
  • Equipe não complementar.

Apesar de concordar com os dados citados apresentados, acredito que muitos dos motivos mencionados são apenas sintomas de um problema ainda maior.

Não é a falta de informações que faz com que o empreendedor não tenha sucesso ao desenvolver o seu negócio. Basta uma rápida pesquisa no google para encontrar uma lista gigante de títulos e orientações.

O que tenho percebido, é que o problema em questão não é saber, mas sim o fazer. Ou seja, a capacidade desses empreendedores de colocar em prática tudo o que sabem. Em outras palavras, entrar em ação!

A inspiração para escrever esse artigo partiu da minha busca por compreender com maior profundidade os desafios dos empreendedores dos quais sou consultora e fazer com que haja maior clareza nessa caminhada empreendedora.  

Hoje, o que eu trago para compartilhar com você, são alguns insights e reflexões sobre um ponto que acredito estar diretamente conectado com a mortalidade das startups: o sonho empreendedor.

Como o sonho empreendedor impacta positivamente ou negativamente na sobrevivência dos negócios?

Com as infinitas oportunidades do meio digital e o contexto do mercado brasileiro, cada vez mais pessoas correm atrás dos seus objetivos, e empreender é um dos mais comuns. Uma pesquisa realizada pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) aponta que dois em cada três jovens brasileiros pretendem se tornar empreendedores nos próximos anos.

A realização pessoal de um sonho é a principal motivação para abrir o próprio negócio. E comigo não foi diferente!

Sonho empreendedor na prática

Em meados de 2013, decidi assumir que sou empreendedora e busquei seguir o meu sonho dourado. Eu gosto de enxergar os problemas como oportunidades e acredito que sempre há espaço para fazermos de uma forma melhor.

Na época, incomodada com um problema muito comum a nós mulheres – a necessidade constante de ter algo diferente para vestir – acabei por desenvolver minha própria startup: o We Closet. Um guarda-roupas compartilhado que estimula o empréstimo de roupas entre mulheres. Com isso, seria possível ter acesso a uma infinidade de peças e evitar gastos desnecessários com roupas que muitas vezes seriam usadas apenas uma vez. Adoraria compartilhar uma história fantástica e dizer que tudo deu certo, até poderia ter dado, mas esbarrei na minha persistência. Ou melhor, na falta dela.

Apesar de acreditar que os sonhos podem ser nosso principal combustível na busca por aquilo que queremos, tenho percebido, também, que eles podem se transformar em nossos maiores obstáculos. Falo isso pois acredito que nossos sonhos sejam imagens idealizadas, ou seja, um recorte de algo que acreditamos que seja perfeito, mas que está longe de ser a realidade.

Muitas vezes ao idealizar um projeto passamos a sentir uma avalanche de sentimentos que vão nos causando muita animação. Quanto mais sonhamos, mais animados ficamos. 

A cena acontece mais ou menos assim:

Um belo dia você, incomodado por um problema muito presente na sua vida, começa a se questionar:

– Por que isso é feito dessa forma? Seria muito melhor, mais rápido e fácil se fosse feito de outro jeito. E não seria legal se existisse… Plinn!! Você tem uma super ideia.

Sentindo-se com uma grande oportunidade nas mãos, você divide sua ideia com os  amigos e familiares e todas eles dizem:

-Nossa, essa ideia é muito legal! Genial!

A cada dia você vai se apaixonando mais e mais por sua ideia. Na sua cabeça muitas pessoas irão usar sua solução e você ganhará milhões de reais. É maravilhoso! Não pode dar errado.

Em seguida começamos a nos mover em busca da realização desse sonho. Colocamos tempo, dinheiro e nossas expectativas para torná-lo real. E o que acontece em seguida? Nos deparamos com a realidade!

Ou seja, a gente imagina e idealiza um projeto perfeito, com a situação mais fantástica do mundo e quando começamos a trajetória de ir atrás do sonho, começamos a nos confrontar com a realidade. E a realidade é sinônimo de quê? Burocracia, decisões que não estão sob o nosso controle, questões globais, economia do país, pressão familiar, contas à pagar e assim por diante. Pouco a pouco, tais situações vão nos colocando em dúvida – será mesmo que esse é o meu sonho?

O motivo pelo qual eu acredito que a maioria das pessoas não conseguem seguir adiante em seus empreendimentos, é justamente o fato delas idealizarem algo que seja perfeito. O fato é que muitas vezes não conseguimos lidar com a realidade.

Poxa! Não era assim que eu pensava que fosse empreender. Cadê o dinheiro? As capas de revistas? O reconhecimento?

E isso faz com a gente desanime e novamente se coloque em uma nova busca de algo idealizado. De novo, de novo e de novo. Até que chega um ponto da desistência e, nesse momento, é muito comum nos colocarmos em uma posição de vitimização (falo isso por experiência própria).

A mudança de paradigma

Colocamos toda a culpa do nosso “fracasso” na economia do país, nos sócios que não fizeram que o deveria ser feito, no investidor que não quis nos dar o dinheiro. Muitas vezes esses, e muitos outros motivos, estarão de fato impactando o desenvolvimento do seu negócio, porém, são desafios inerentes a qualquer pessoa que decide seguir por esse caminho.

Acredito que muito mais do que ficar se questionando sobre o que está te distanciando do seu sonho, seria melhor você se questionar: o que eu estou fazendo hoje que me coloca mais perto dele?  Quando a gente fica culpando o mundo, estamos olhando para fora e olhar para fora diz respeito a tudo aquilo que não está sob o nosso controle, que não depende de você.

A mudança de paradigma acontece quando você se coloca como responsável, ou seja, quando começa a agir sob as coisas que só depende de você: o que você vai fazer para conquistar esse sonho?

Isso me faz lembrar muito de um empreendedor que admiro demais. O Juliano Murlick da startup Triider. Ele é um exemplo para mim. Hoje o negócio está muito bem encaminhado, mas poderia ter tido uma história totalmente diferente se não fosse a persistência desse empreendedor. Contamos essa história em um próximo post!

Eu, particularmente, gosto de dizer que empreender é uma jornada de constância. Para se conquistar o que deseja, é imprescindível persistir. E persistir é diferente de insistir. Persistir tem uma pitada de autoconhecimento e estratégia.

Penso que devido às circunstâncias atuais, hoje se tornou muito comum desistirmos das coisas que queremos. Como temos alternativas, é natural optamos pelo mais cômodo, pelo mais fácil. Quantas vezes na sua jornada empreendedora você já não pensou que voltar para o seu emprego formal fosse uma saída mais fácil?

Fica aqui a visão de Uri Levine, empreendedor em série e co-fundador do Waze: Se o problema que você quer resolver desaparece, então não há motivo para continuar tentando. Fora isso, você nunca deve desistir.

O sacrifício faz parte da trajetória e muitas várias vezes nesse caminho o “fracasso” será inevitável. Você pode enxergar esse fracasso como o motivo pelo qual você deve desistir ou começar a entendê-lo como um etapa do sonho que você ainda quer conquistar.  

“O fracasso não é o oposto ao sucesso, mas uma etapa dele”.  Diogo Guerreiro.

Espero que esse texto tenha feito sentido para você, tanto quanto fez para mim mesma ao longo da sua escrita.

E aí, o que você está fazendo hoje que te coloca mais perto do seu sonho?

O Caminho Empreendedor é a metodologia desenvolvida pela Semente para guiar empreendedores nessa jornada.

Carolina é consultora de inovação na Semente Negócios.
Administradora pela FAQI RS, integrou a equipe de projetos do Sebrae RS onde apoiou o desenvolvimento e gerenciamento das atividades de capacitação empreendedora para os mercados de moda, economia criativa e redes de cooperação. É empreendedora social como idealizadora da startup de moda WeCloset.

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