Muitas vezes já falei, inclusive nesta coluna, sobre a importância do capital social na dinamização de ecossistemas de inovação, sejam eles territoriais ou setoriais. Em outras palavras, para que a inovação possa surgir nesses contextos, a interação entre pessoas e organizações precisa ser fluida e intensa. Vivi um pouco desse processo em Porto Alegre, meia dúzia de anos atrás, quando participei de um movimento que serviu de pontapé inicial para uma nova cultura de empreendedorismo por meio de startups.

Recentemente, no entanto, ao tentar levar essa lógica a outros lugares, tenho visto que estratégias emergentes de incentivo à interação nem sempre funcionam. Ou seja, nem sempre se traduzem em geração de inovação. O que consigo claramente perceber é que a concentração do capital financeiro nas mãos de setores conservadores consegue minar o surgimento de ambientes de inovação. Acontecem deformações no capital social, que são alterações artificiais na forma de interação entre pessoas e organizações.

Essas deformações são manifestadas de várias formas, como inexistência de clientes locais para negócios inovadores e a criação de uma nefasta cultura de empregabilidade, que suga jovens potencialmente inovadores para carreiras estúpidas. Em outros casos, há uma cultura de empreendedorismo não-inovador que se sobrepõe à cultura de inovação ou um coronelismo que obriga lideranças emergentes a aportarem seus méritos a pequenos ditadores ligados aos principais detentores do capital financeiro.

O Rio Grande do Sul, onde moro, é um exemplo de gerontocracia ultrapassada, onde o capital está concentrado nas mãos de produtores rurais, proprietários de indústrias sem futuro, aposentados e burocratas. Temos ainda uma classe criativa interessante, mas que é submissa aos setores tradicionais. E uma rede de produção intelectual (com destaque para Ciências da Vida), nas universidades, que não se conecta com demandas reais de inovação no território. Além disso, temos certa aversão à conexão com vanguardas nacionais e internacionais.

Esse cenário de baixa interatividade faz com que estejamos condenados a uma pesada estagnação. Qualquer movimento que possa romper essa inércia é bem-vindo, mas precisa levar em conta as superestruturas pré-existentes e a necessidade de não cair na chamada clusterização artificial, que são bolhas no campo social. O que podemos fazer a respeito?

Igor Oliveira é sócio-fundador da Semente.

Publicado originalmente no jornal Zero Hora em  17 de junho de 2016