uma mulher em pé escrevendo em um quatro a jornada do cliente e outra sentada olhando as etapas para a teoria da mudança
Impacto Social

Teoria da Mudança: o que é e como aplicar

Quem participa dos diferentes ecossistemas de empreendedorismo de impacto está acostumado a cruzar vez que outra com a ideia de Teoria da Mudança.

Geralmente atrelada a noções como “métricas de impacto” e “visão de longo prazo” as metodologias relacionadas à teoria da mudança – como o Modelo C, por exemplo – se difundiram rapidamente entre organizações e empreendedores focados em negócios de impacto.

No entanto, saber como aplicá-la de modo efetivo já é algo bem mais complexo. Quer finalmente entender o que é e como utilizar as ferramentas de teoria da mudança? Então se liga no post que preparamos para vocês.

Afinal, o que é a Teoria da Mudança

De forma super resumida, a Teoria da Mudança é um conjunto de ferramentas que auxilia no planejamento de qualquer tipo de iniciativa social – como um projeto, uma política pública ou um empreendimento, por exemplo.

Ou seja, ela ajuda a definir e explicitar os objetivos de longo prazo de determinada iniciativa ao mesmo tempo em que permite identificar as pequenas metas a serem atingidas durante o caminho para que esse objetivo se concretize.

Ela é especialmente atrativa para projetos colaborativos, que contam com interesses de diferentes atores. Seu ferramental permite que as decisões sobre as mudanças sejam organizadas de forma coletiva.

“A Teoria da Mudança é essencialmente uma descrição abrangente e ilustrativa de como e por que uma mudança desejada deve acontecer em um contexto particular. Ela é focada em mapear ou “preencher” a lacuna (gap) entre o que um programa ou iniciativa de mudança faz (suas atividades, intervenções) e como isso determina que os objetivos desejados sejam alcançados.” (TheoryofChange.org)

A teoria da mudança surgiu na metade dos anos 90, no contexto norte-americano de avaliação e monitoramento de iniciativas sociais. Uma das principais idealizadoras e formuladoras do conceito foi Carol Weiss, que já vinha pensando sobre o conceito desde a década anterior.

No entanto, foi somente durante as Reuniões de Transformação Comunitária (Roundtable on Community Change promovidas pelo Aspen Institute), em que diversos atores do ecossistema se reuniam  para debater os desafios e lições de cada projeto, que as ferramentas em si começaram a tomar forma.

Em uma dessas ocasiões, Carol Weiss identificou uma das principais razões pelas quais era tão difícil avaliar os resultados dos programas comunitários.

Os pressupostos iniciais que os guiavam estavam mal articulados com o objetivo geral do programa, e muitas vezes com a própria estrutura do programa em si!

Teoria da Mudança em negócios de impacto

No caso dos negócios de impacto, o problema é extremamente similar. Muitas vezes, sabemos que queremos gerar um impacto positivo na sociedade e transformar o mundo e a comunidade onde vivemos em um lugar melhor.

Mas, na correria do dia-a-dia, são raros os empreendedores que encontram o tempo e as ferramentas necessárias para entender e estabelecer a sua tese de impacto, a declaração objetiva de como o negócio quer gerar impacto.

E, mais importante ainda, identificar todos os pressupostos (e as métricas!) relacionados a cada um dos passos que levarão ao alcance do objetivo final.

E é justamente aí que entra a tal da Teoria da Mudança, que embora leve este nome acaba se desdobrando em uma série de atividades extremamente práticas. A teoria da mudança é o ponto de partida (e não o de chegada)! Começa pela tese e vai quebrando passo a passo o caminho para concretizá-la.

Mas, afinal de contas, como implementar a Teoria da Mudança no seu negócio de impacto?

1. Envolva os diversos stakeholders no processo

O primeiro passo é ter em mente que o processo deve ser realizado da forma mais colaborativa e coletiva possível. De pouco adianta designar um único indivíduo com a tarefa de elaborar toda a teoria da mudança de sua organização e entregá-la na forma de um relatório que não será lido ou aplicado.

Mesmo que demore um pouco, vale mais a pena despender um dia em que todos os stakeholders estejam engajados e dispostos a trazer suas visões e inputs para o projeto.

Afinal de contas, lá na frente são justamente estes colaboradores e investidores que estarão interessados em ver os objetivos realizados e as metas alcançadas.

Caso seu negócio ainda esteja em uma fase inicial em que os potenciais investidores e parceiros não estão ainda em contato com o projeto, vale um esforço para trazê-los para perto ou pelo menos realizar um exercício de empatia e pensar como eles.

2. Conheça profundamente o problema que você está resolvendo (e as pessoas afetadas por ele)

Elaborar uma boa teoria da mudança depende, necessariamente, das pessoas envolvidas no processo terem um conhecimento amplo e aprofundado não apenas sobre a solução – o projeto ou negócio que estão desenvolvendo – mas também e principalmente sobre o problema que buscam resolver.

>>> Veja como a pesquisa exploratória pode ser aplicada para conhecer o problema dos clientes

A metodologia do Caminho Empreendedor, desenvolvido pela Semente Negócios, auxilia neste processo de identificação e exploração do problema.

Realize pesquisas, vá para as ruas e converse com as pessoas que estão em contato direto com o problema antes de sentar para elaborar a sua teoria da mudança.

Quem sabe convide uma delas para a co-criação?

Afinal de contas, não há ninguém mais interessado nos resultados da sua ação do que aquelas pessoas que serão diretamente afetadas por ela.

Nesta etapa, preocupe-se também em ter bem especificado e organizado:
a) as causas e as consequências do problema central;
b) as raízes mais profundas e complexas do problema que você está tentando resolver (utilize a técnica da árvore de problemas e dos por quês?);
c) além de listar a maior quantidade possível de causas e consequências associadas (em um primeiro momento, na forma de brainstorm).

Tire um tempo para, em seguida, organizar estas conexões e certificar-se que elas fazem sentido.

3. Defina os objetivos de longo prazo desejados (e como avaliá-los)

Uma das etapas mais importantes – se não a mais importante – na construção da Teoria da Mudança é definir quais os objetivos de longo prazo que se deseja alcançar com o negócio de impacto.

Mas, como definir estes objetivos?

Bom, lembra da etapa anterior de exploração do problema? Se você cumpriu bem aquela etapa, a definição dos objetivos aqui é simplesmente uma questão de adaptação da linguagem e reafirmação do compromisso com o problema.

Por exemplo, se o problema identificado é a “falta de água na comunidade abc”, então a definição do objetivo de longo prazo pode ser descrita como “melhorar a oferta e distribuição de água na comunidade abc”.

Assim como ao longo de toda a construção da Teoria da Mudança, nesta etapa também é importante atentar para questões de mensuração dos resultados com indicadores de impacto.

Essas definições devem ser estipuladas desde o princípio, para facilitar a avaliação do programa ou evolução do negócio ao longo de sua implementação.

Como você vai saber que atingiu o seu objetivo de melhorar a oferta de água em determinada comunidade? Esta “melhoria” precisa ser explicitada de forma objetiva e mensurável, para que possamos entender o tamanho da mudança que pretendemos realizar.

Mas, como saber que meta é razoável? Voltamos aqui uma vez mais à exploração do problema.

Quando bem feita, esta etapa deve ser capaz de nos indicar quantitativamente o tamanho do problema que estamos encarando – e, por consequência, do impacto gerado pela solução que entregaremos.

Quantas famílias da comunidade não têm acesso à água? Quantos % isso simboliza dentro de toda a comunidade? Por quantas horas do dia o fornecimento de água é garantido? Qual a qualidade desta água? Sabendo estes dados, podemos eleger as metas que desejamos atingir com a nossa intervenção.

Dica importante

-> Cuidado com as métricas de vitrine! Muitos projetos utilizam as métricas de vitrine com o objetivo de apresentar “grandes números” que impressionem seus investidores e colaboradores. Mas de nada adianta trazer números enormes se eles não nos informarem nada sobre a evolução da ação proposta.

-> As métricas devem ser sempre pensadas em relação ao problema, para que possamos calcular as mudanças que ocorreram. Por exemplo, definir a meta de proporcionar água de qualidade para 500 famílias não significa nada fora do contexto relacional.

Pense que se o abastecimento de água às 500 famílias durar apenas alguns minutos no dia, ou ocorrer durante 3 horas mas com uma logística difícil e cara, isso não acarretará em uma melhoria na qualidade de vida das pessoas que sofrem com este problema e nossos números seriam apenas uma “imagem meramente ilustrativa”, bonita de se ver mas sem um conteúdo que traduza o real impacto.

-> Uma boa métrica traz os números dentro de seus contextos. No nosso exemplo, algumas possibilidades de métrica de impacto seriam: aumentar para X% a quantidade de famílias que têm acesso à água potável (própria para beber e cozinhar) durante X% do seu dia a um valor de X reais por litro. Muito melhor e mais preciso do que apenas “entregamos água para 500 famílias”.

4. Monte a estrutura da Teoria da Mudança

Agora que vocês já definiram o objetivo de longo prazo e sua métrica, é hora de começar a elencar as atividades, hipótese e resultados esperados que irão compor o mapa da teoria da mudança. A estrutura básica para fazer isso utiliza-se da lógica do “E SE…”

Veja no exemplo a seguir:

SE nós estabelecermos um comitê para a comunidade (atividade) E as pessoas se engajarem (hipótese) ENTÃO poderemos construir uma cisterna comunitária (resultado).
SE construirmos uma cisterna (resultado) E ela for de fácil manutenção (hipótese) ENTÃO as pessoas terão acesso à água para suas atividades diárias (benefícios).
SE as pessoas tiverem acesso à água (benefício) E as famílias cumprirem as indicações de higienização (hipótese) ENTÃO vamos alcançar o objetivo de melhorar a distribuição de água (objetivo geral).

No entanto, para resolver problemas complexos, as hipóteses e atividades são inúmeras e muitas vezes acabam se entrecruzando. Tendo em mente a lógica do E SE, utilizar uma ferramenta como um quadro para organizar as inúmeras hipóteses ou um diagrama para elencá-las pode ajudar muito na hora de montar a sua Teoria da Mudança.

O quadro abaixo contribui para esta organização. Lembrando que o primeiro item a ser preenchido é justamente o que aparece no mais à direita. Você deve primeiro preencher o resultado de longo prazo que espera alcançar, e então retornar ao início e seguir na direção desse resultado.

Fazendo desta forma, garantimos a efetividade da real mudança: é ela que define todo o processo. Mantendo o foco no resultado, as demais etapas do empreendimento são encaminhadas na sua direção, garantindo que os resultados de longo prazo sejam alcançados.

Eu preciso ter uma teoria da mudança?

Chegando até aqui fica evidente que os ganhos ao utilizá-la vão muito além do auxílio na mensuração de impacto, embora este também seja um ponto forte desta metodologia. As vantagens de aplicá-la na construção do seu modelo de negócio  são:

1 – Ajudar a desenvolver um planejamento mais robusto das atividades a serem executadas,
2 – ter uma visão objetiva sobre quais tarefas são necessárias para atingir quais resultados,
3 – impedir que você e sua equipe gastem tempo e recursos com tarefas pouco relevantes e, claro,
4 – facilitar o processo de acompanhamento e monitoramento da evolução do seu negócio.

Esperamos que agora você tenha um entendimento um pouco mais aprofundado sobre as ferramentas de Teoria da Mudança e busque implementá-la em seu negócio de impacto!

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