O que me espanta nas polêmicas recentes envolvendo Uber e WhatsApp não é a debilidade de nossas autoridades, resguardadas as devidas exceções. Antes desses episódios, já sabia que elas não lidam bem com a mudança e não entendem a dinâmica da inovação perante a sociedade. Estão no poder justamente pela convergência dos interesses mais conservadores.

Preocupante mesmo é o fato de sermos meros tomadores de inovações geradas lá fora. As primeiras revoluções da internet já passaram. Em matéria de tecnologias digitais como as que estão por trás do Uber e do WhatsApp, seremos sempre usuários, e não desenvolvedores. Para termos chance de disputar mercado com esses dois players, precisaríamos de startups extremamente inovadoras cinco e dez anos atrás, respectivamente. Espero que conservemos, ao menos, nossas liberdades como usuários.

Já em outras frentes do desenvolvimento tecnológico, como biotecnologia e internet das coisas, ainda temos alguma chance de protagonizar. De toda forma, nossas possibilidades são escassas. Falta agilidade na formação de capital humano. Falta articulação entre quem forma e quem produz inovação. Pior ainda, o Brasil é extremamente fechado para o mundo. Nossa única possibilidade agora é entender rapidamente o processo de desenvolvimento de ecossistemas de inovação no Brasil – que é diferente do que acontece em outros países – e abrir caminho para que ele se acelere.

Igor Oliveira é sócio-fundador da Semente.

Publicado originalmente no jornal Zero Hora em 18 de dezembro de 2015